Análise do livro de Lucia Santaella e Winfried Noth — IMAGEM: Cognição, Semiótica, Mídia.

A idéia é clara: a imagem, como tudo o que envolve o homem, também evolui.

É justamente esse processo evolutivo que Santaella e Noth pretendem definir propondo três paradigmas, ou seja, três modelos ou divisões, cada qual com suas características técnicas, práticas e teóricas, relacionadas à produção da imagem.

É preciso entender que o termo paradigma oferece amplas abordagens, desde o seu sentido primário proposto, que é o conjunto modular de costumes, crenças e soluções que ocorrem em determinada comunidade científica, até o sentido adotado como ponto de partida para o presente artigo, justamente os traços gerais que caracterizam, nesse caso, o processo de evolução na produção da imagem.

Os três paradigmas propostos, tendo em vista as rupturas fundamentais operadas através dos séculos, nos recursos, técnicas e instrumentos de produção da imagem, são os seguintes:

(1) PARADIGMA PRÉ-FOTOGRÁFICO ou processos artesanais de criação da imagem: é a produção artesanal, que dá expressão à visão por meio de habilidades manuais e corporais. Aqui entram desde as gravuras nas cavernas até o desenho, a pintura e a escultura
(2) PARADIGMA FOTOGRÁFICO ou processos automáticos de captação da imagem: onde ocorreu a automatização na produção da imagem, por meio de máquinas que utilizam lentes e processos para a fixação da imagem em determinado receptor. Vai desde a imagem fotográfica, até o cinema, tv, vídeo e hologramas.
(3) PARADIGMA PÓS-FOTOGRÁFICO ou processos matemáticos de geração da imagem: também pode ser chamado de gerativo. São as imagens virtuais, derivadas de uma matriz numérica, simuladas, independentes de uma referência real.

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Foto de cottonbro no Pexels

Toda mudança no modo de produzir imagem provoca mudanças em nosso modo de ver o mundo. Porém essas mudanças dependem de recursos técnicos, instrumentais para que ocorra a produção dessas imagens, o que se em um primeiro momento leva a mudanças de ordem mental e social, por outro lado essas advém de necessidades que nem sempre são materiais, como ocorrem mais especialmente nos processos de produção da linguagem, visual, verbal ou sonora.

Para aprofundar nesses três paradigmas, a autora recorre à analise comparativa do modo de produção de cada um deles e em seguida examina as variações, tomando como referência os seguintes tópicos: (1) meios de armazenamento; (2) o papel do agente produtor, (3) a natureza das imagens em si mesmas, (4) as imagens e o mundo, (5) meios de transmissão e (6) o papel do receptor.

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Foto de ThisIsEngineering no Pexels

 


AS IMAGENS E SEUS MEIOS DE PRODUÇÃO

Paradigma pré-fotográfico.

O que o caracteriza basicamente é a necessidade de um suporte para servir de receptáculo às substâncias e instrumentos, que se impõe à produção do desenho, pintura, escultura ou gravura. Nesse último caso a técnica já começa a se aproximar do paradigma fotográfico.

O principal instrumento nesse processo é o próprio corpo humano, que se adapta e cria prolongamentos de acordo com as necessidades expressivas. Cada processo possui seus instrumentos característicos. No caso da pintura, o instrumento mais evidente é o pincel.

O resultado disso não é apenas a imagem, mas o próprio olhar do artista sobre ela: o sujeito, o objeto criado e a fonte de criação fundidos em uma única síntese visual.

Paradigma Fotográfico.

A característica principal do paradigma fotográfico são as técnicas óticas de formação da imagem a partir da emanação de luz de determinado objeto, compartilhado aqui por todos os meios advindos desse paradigma (cinema, vídeo, tv…).

A imagem aqui é o resultado de um fenômeno químico ou eletro-magnético preparado para reagir ao menor estímulo de luz. Enquanto a imagem artesanal é, por sua própria natureza, incompleta, o ato fotográfico é fruto de um enquadramento que recorta o real sob um ponto de vista, que regula desde a duração, fluxo, continuidade do tempo até o momento de apertar o obturador. A imagem enquanto emanação direta e física do objeto, que no instante em que é feito a tomada se torna tanto eternamente registrado, como também desaparece para sempre tendo o momento passado.

Paradigma Pós-Fotográfico.

Aqui o suporte material das imagens produzidas artesanalmente e o físico- químico-maquínico das imagens fotográficas desaparecem completamente. O que temos é a união entre computador e uma tela de vídeo, mediados pela matemática mais pura. Modelos, programas, operações abstratas, cálculos.

Nesse sentido o computador, embora máquina, não opera sobre uma realidade física, mas sim sobre o substrato simbólico da informação. O agente da produção aqui não é mais o artista artesanal, subjetivo, nem mesmo o sujeito que manipula o real através de uma máquina, mas é antes de tudo um programador que utiliza a sua inteligência visual em conjunto com a inteligência virtual do computador.

A imagem infográfica é uma realidade numérica. O que possibilita a sua manifestação é a tela de vídeo, composta de pontos elementares chamados pixels. O pixel é localizável, controlável e modificável por estar ligado à matriz de valores numéricos. Dessa maneira pode ser retrabalhada a bel prazer do agente produtor.

Temos aqui um contraste interessante: o que se apresenta ao receptor na tela de vídeo são imagens altamente icônicas, porém o que está por trás dessas imagens, o que as forma, é radicalmente abstrato.

As três fases envolvidas nesse processo são:

1. Construção de um modelo de um objeto numa matriz de números
2. A matriz numérica é transformada de acordo com outros modelos de visualização
3. O computador traduz essa matriz em pixels, tornando o objeto visível na tela de vídeo

O que vem antes do pixel é um programa, uma linguagem e números. Para tanto é preciso haver um modelo. Nesse sentido a imagem sintética já é uma abstração que procura simular o real, mas não precisa da presença dele. É uma abstração formal, passível de ser manipulada, funcionando como réplica computacional da estrutura.

A grande contribuição inestimável do computador está na sua capacidade de por modelos à prova sem necessitar submetê-los a experiências reais.

CONSEQUÊNCIAS DOS MEIOS DE PRODUÇÃO DA IMAGEM

Armazenamento.

No paradigma artesanal o meio de produção é justamente o de armazenamento, visto que consiste em um suporte, o qual está sujeito às erosões do tempo, o que contradiz a intensão de durabilidade implícita ao gesto do produtor.

No paradigma fotográfico temos os negativos e fitas, com maior resistência e durabilidade. Assim a imagem pode ser copiada e regerada.

No paradigma pós fotográfico a memória do computador é o meio de armazenamento, completamente abstrata, com o poder de tornar esse conteúdo numérico visível a qualquer momento, de qualquer ponto. Aqui temos a imagem dentro do universo do disponível, sofrendo muito pouco as restrições de tempo e espaço.

Agente Produtor.

ARTESANAL: Imaginação para figuração. Fruto da simpatia ou oposto. Aqui se plasma o olhar do sujeito, dando corpo ao pensamento figurado.

FOTOGRÁFICO: Percepção e prontidão para agir. Ato de “captura” do real. A foto registra o conflito entre o oho da câmera e o ponto de vista do sujeito. É o pensamento performático.

PÓS-FOTOGRÁFICO: capacidade de cálculos para modelar, conhecimento para controlar e manipular os dados. Necessidade de agir sobre o real. Aqui os pontos de vistas são vários e relativos. A infografia existe justamente para promover as mudanças na imagem, representando o pensamento lógico e experimental.

Natureza da Imagem.

ARTESANAL: Imitação, imaginação, figuração da visão.

FOTOGRÁFICO: Captação e reflexo. Vestígios de luz, traços do que sobrou de determinado corte no campo da natureza. Registro do confronto entre sujeito e o mundo.

PÓS-FOTOGRÁFICO: Simulações por modelizações de parâmetros de dada situação ou objeto. Imagem- experimento controlável.

Relação da Imagem com o Mundo

ARTESANAL: Metáfora, janela para o mundo. Imagem evocativa, embora figurativa, alusão a um mundo que não existe por ser simbólico, a visão de um sujeito.

FOTOGRÁFICA: Metonímia, relação por contigüidade, entre o real e a imagem.

PÓS-FOTOGRÁFICA: Funcional, experimental, partindo de um modelo simbólico. Icônica.